segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
O Conto..
“ Olhou para o celular e pensou em ligar pra ele pela vigésima vez na mesma semana. Uma saudade febril percorreu o seu corpo. Queria ouvir novamente a voz dele, sentir seu abraço protetor, sair para conversar, contar que tinha mudado de casa. “Só isso”, mentiu. Alisou o lençol branco da nova cama kingsize. Ele bem que gostaria de conhecer seu novo quarto. Riu, vendo o sorriso dele estampado em sua retina.
..Como ligar pra ele se ela não tinha mais o número? Apagara todos os vestígios daquela existência em sua vida. Fotos, contatos, presentes, orkut, msn, tudo. Agiu como um viciado ao livrar-se do vício, jogou fora todos os estoques da droga; a garrafa de vodka escondida no vão do gaveteiro, o conhaque em miniatura na gaveta de calcinhas, o vinho do porto no fundo da cristaleira, a caixinha secreta com pó. Limpou Rodrigo de sua vida, para evitar a recaída.
..Mas agora sentia-se recuperada. Já tinha se envolvido com outros caras, não sentia raiva, ciúmes, nem nada. Era outra mulher. Assumiria outra postura diante dele. Queria apenas o que ele tinha de melhor, o que nenhum outro homem conseguira substituir. Depois, tchau.
..Agiria como ele: não se envolveria, curtiria o momento, sem abrir mão de sua liberdade, sem cobranças, “sem desespero, sem tédio, sem fim”. Não era isso?
..Deitada na cama, resgatou na memória porquê resolvera apagar aquele homem de sua vida, de seus pertences, de seu corpo. Lembrou da ansiedade que a corroeu nas semanas em que ele desapareceu. Cada vez que o celular tocava, ela dava um pulo. “Casa chamando”, “mãe chamando”, “Beth chamando”. Chegou a deixar o aparelho desligado por dias seguidos, na esperança de que ele ligasse, fizesse um telefonema internacional e desse de cara com a secretária eletrônica. Mas quando ligava o celular recebia sempre as mesmas mensagens: “mãe tentou falar com você e não conseguiu”, “Beth tentou falar com você e não conseguiu”. As pessoas que realmente se preocupavam com ela começaram a se preocupar à toa. Tudo por causa do cara.
..Quase um mês depois o celular avisou: “Rô chamando”. Ela respirou fundou, deixou tocar quatro vezes – pra não demonstrar ansiedade – e atendeu com voz de gente feliz, animada, super de bem com a vida. “Voltei ontem de viagem” – o advérbio de tempo desceu quadrado – “mas não posso te ver hoje, gatinha. Tenho que ajudar minha mãe a comprar um tapete novo pra sala” – o pronome de tratamento e a finalidade (desculpa esfarrapada) do predicado desceram rasgando.
..Apoiada nas almofadas coloridas de sua cama (escolhidas com carinho, em diversos lugares), Maria mordeu os lábios, como sempre fazia quando a raiva chegava de maneira incontrolável. Olhou novamente para o celular e agradeceu a si mesma por ter apagado o número."
"Uma pessoa olhando para um celular que não toca - não há cena mais idiota. Os celulares foram justamente inventados para que ninguém precise mais ficar aguardando uma ligação ao lado do telefone."
O FIM..
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